Diogo Seixas: “Não quero olhar para trás e pensar que podia ter trabalhado mais”

Ricardo Brito Reis esteve à conversa com o internacional português

Atletas
23 FEV 2025

Da formação no Imortal à experiência no Bétis, passando pela adaptação ao basquetebol universitário nos Estados Unidos, Diogo Seixas tem acumulado aprendizagens. Agora, em Central Arkansas, sente que está a começar a mostrar o seu verdadeiro valor. O filho do antigo internacional e atual treinador Carlos Seixas quer seguir o seu próprio caminho e assumir um papel de destaque, seja na universidade ou na seleção nacional e, em entrevista exclusiva à FPB, fala sobre os desafios da sua jornada e o sonho de representar Portugal ao mais alto nível.

 

Cresceste num ambiente muito ligado ao basquetebol, obviamente, porque o teu pai, o Carlos (Seixas), é uma lenda da modalidade em Portugal. Brincavas com bolas de basquetebol desde que te lembras?

Sim, desde pequeno. Estava sempre perto do meu pai, por isso estava sempre ligado ao basquetebol ou sempre a fazer alguma coisa relacionada. Mas, por acaso, nunca foi uma coisa que ele me empurrasse ou tentasse impor. Nunca foi ele a inscrever-me no basquetebol. Até fui eu que comecei, e foi a minha mãe que me inscreveu. Ele nunca insistiu nisso, deixou-me decidir. Se eu gostasse, gostava; se não gostasse, também não era o fim do mundo.

 

Dava-te liberdade para escolheres o que querias fazer, mas vias-te muitas vezes em pavilhões. Ias atrás dele para todo o lado?

Sim, especialmente quando era mais pequeno. As minhas fotos de bebé todas são com ele no campo, com uma bola. Por isso, sim, sempre estive ligado ao basquetebol.

 

E nasceu aí também a paixão para ti. Qual foi aquele momento em que percebeste que o basquetebol podia ser mais do que só uma brincadeira?

Foi nos Sub14, quando fomos campeões nacionais com o Imortal. E depois tive uma conversa com os meus pais, até mais um bocado séria. Nessa altura, ainda era muito miúdo, mas foi uma conversa séria. Porque aí clubes já podiam falar comigo, falar com o meu pai, para eu ir para o estrangeiro. E foi mais ou menos nessa altura que ele me perguntou: “Mas gostas mesmo disto? Queres mesmo fazer isto?” Porque se fosse para fazer esse investimento todo, era para levar a sério.

 

Ou seja, essa conversa surgiu por iniciativa dele.

Sim, basicamente. Foi ele que disse: “Bem, há clubes de Itália, clubes de Espanha…” Por causa dos contactos dele, havia gente a falar comigo, e ele não me contava. Só me contou depois, quando tivemos esta conversa séria. E depois fui eu que disse: “É isto que eu quero mesmo”.

 

Tens outras memórias dos teus anos em Albufeira?

Em Albufeira tenho as Festas do Basquetebol, claro. Por acaso, eu até gostei mais de ganhar as Festas do que ganhar alguma coisa com o Imortal. Porque primeiro estava lá toda a gente e nós éramos todos amigos. O Algarve não é muito grande, por isso conhecemo-nos todos desde o minibasquete. E então estavam lá as nossas famílias, a malta que conhecemos. Acho que as Festas são mesmo o pico do Basquetebol jovem em Portugal.

 

E depois como é que surgiu a oportunidade de ires para Sevilha, para o Bétis? Foi por um desses contactos que surgiram, entretanto?

Sim, na altura foi até com o Paulo Sérgio, que me pôs em contacto com um agente que ainda é com quem estou neste momento, o Ernesto Berenguer. E foi nessa altura que tivemos aquela conversa séria do “É isto que queres?” Tomei a decisão de ir para Sevilha e gostei.

 

No ano antes de ires para Sevilha, o Imortal tinha organizado um jogo amigável contra o Bétis, não foi? Mas tu na altura não sabias de nada ainda?

Sim, exatamente. Eu nem sabia nada do Bétis, nem que estavam interessados em mim, nada. E o mais curioso foi que eu nem fui a esse jogo porque estava doente. A ideia do jogo era toda para me verem a mim, foi organizado por causa disso, mas acabei por não ir porque estava doente. Foi engraçado porque ninguém sabia, mas era mesmo esse o objetivo.

 

O teu pai gosta muito do basquetebol europeu. Ajudou a convencer o teu pai o facto de ires para Espanha, com um basquetebol reconhecidamente bom?

Sim, sem dúvida. O Bétis já tinha histórico de formar grandes jogadores, apostavam muito na formação. Mesmo não sendo das melhores equipas da ACB, na formação estavam sempre a competir com as melhores de Espanha. E também era perto de casa. De Albufeira a Sevilha era quase a mesma distância que de Albufeira a Lisboa, por isso ajudou bastante.

 

Para ti, jogares especificamente em Espanha era um objetivo ou querias sobretudo sair do contexto do Algarve, que já sentias ser pequeno para ti?

Eu nunca pensei: “Ah, tem de ser Espanha” ou “Tem de ser França ou Itália”. Foi a oportunidade que surgiu na altura e decidi. Mas acabou por correr bem.

 

Mas nessa altura tinhas outras hipóteses?

Sim, o meu pai guardava muita coisa. Ele não me contava tudo, acho que a ideia era para não me subir à cabeça ou para eu não andar a contar a toda a gente. Mas ele dizia-me que havia vários clubes interessados. Um dos clubes era o Manresa, e cheguei a jogar um torneio com eles, mas não gostei muito do ambiente. Fiquei com receio porque a experiência não foi boa. Já em Sevilha, gostei muito quando fui visitar.

 

E acabaste por ficar três anos no Bétis. O que retiras dessa experiência?

Para mim, a parte mais positiva foram os meus dois anos de Sub18, especialmente o segundo ano. Estava todos os dias com a equipa da ACB, e ver o nível de profissionalismo abriu-me os olhos para perceber que, afinal, ainda estava longe de chegar àquele nível. Na equipa, havia cinco ou seis jogadores que já tinham estado na NBA. Foi um nível de talento muito alto e isso ajudou-me a crescer.

 

Foi como um “banho de humildade”.

Sim, exatamente. Também senti a responsabilidade, porque o clube investiu em mim: deram-me casa, comida, tudo. Sentia que tinha de dar o meu melhor para retribuir. Estar em Espanha ajudou-me muito, porque jogar contra equipas como o Real Madrid e o Barcelona era um nível completamente diferente.

 

Enquanto jogador, quais foram as áreas em que sentiste mais evolução nesses três anos?

Quando cheguei a Espanha, joguei como base desde o primeiro dia. Lá, tive mesmo de aprender coisas de base: drible, decisões, jogar no perímetro. Tive de melhorar muito. Eu tinha 2,03 metros, mas jogava como um exterior.

 

Acrescentaste ferramentas ao teu jogo, como ball handling, decisões no pick-and-roll…

Sim, exatamente. Em Portugal, muitas vezes, como era o mais alto, jogava perto do cesto. Lá, tive de aprender a ser versátil e a jogar no perímetro. Isso fez muita diferença.

 

E depois regressaste ao Imortal. Porquê essa decisão de voltar a Portugal antes de ires para a NCAA?

Na verdade, o Bétis estava a passar por uma situação financeira difícil. Houve descida de divisão para a LEB Oro, foram comprados pelo clube de futebol, depois o futebol foi vendido a um grupo mexicano… Foi uma confusão. Uma das soluções que encontraram foi cortar os contratos de formação. Fiquei sem clube. A ideia inicial era continuar na Europa, mas o meu pai sempre valorizou a educação. Ele dizia: “É quase impossível jogar a um nível de elite na Europa e estudar ao mesmo tempo”. Então, começámos a pensar nos Estados Unidos. Como foi uma decisão tardia, já em maio, não havia muitas ofertas e acabei por voltar ao Imortal para não ficar parado.

 

Não sei se o teu pai preferia que ficasses na Europa, mas, por outro lado, sabia que, para jogar nos Estados Unidos, tinhas de ter uma bolsa, tinhas de estudar.

Exatamente. E no final destes quatro anos saio com um curso.

 

Qual é o curso que estás a tirar?

Estou a estudar Psicologia. Aqui temos o Major, e depois eu queria tirar um Minor em Psicologia do Desporto.

 

E a NCAA alguma vez foi um sonho para ti, quando eras miúdo?

Para ser honesto, quando pensava nos Estados Unidos, era só na NBA. Nem via universitário. Só comecei a ver quando meti na cabeça que queria jogar cá.

 

Como é que foi esse processo? Houve muitas universidades interessadas?

Sim, no meu segundo ano de Sub18 comecei a receber ofertas. Eram dezenas.

 

E escolheste San José State. Porquê?

Os treinadores. Há quem escolha pelo sítio mais bonito ou outras razões, mas, para mim, foram os treinadores. Eles venderam-me o programa, a ideia que tinham para mim, e eu fiquei convencido. Gostei tanto que nem fui a mais nenhuma visita. Disse logo: “É aqui que quero estar.” Lembro-me que Utah State tentou convencer-me, até ligaram para o Neemias, mas ele não atendeu. Depois ligaram ao Diogo Brito para me tentar convencer, mas eu já tinha decidido.

 

As expectativas dos treinadores acabaram por se cumprir?

Tivemos muitos problemas. O nosso poste principal partiu o pé logo no início da pré-temporada, o segundo poste foi expulso da equipa e o terceiro poste não era nada de especial. Acabei por jogar a 5, quando a ideia era eu jogar a 3. Foi um ano difícil.

 

E como é que surge a mudança para Central Arkansas?

Aqui, com o Transfer Portal, há basicamente uma free agency todos os verões. Quando assinas por uma universidade, já não é por quatro anos, é por um ano. Tive a reunião de final de época com os treinadores, e disseram-me que queriam que eu ficasse, mas, dois meses depois, chamaram-me ao escritório para dizerem que achavam melhor eu entrar no Portal, porque tinham contratado outro jogador.

 

Acabaste por perder algumas oportunidades.

Sim, já estava tudo comprometido.

 

Central Arkansas foi a escolha certa para ti?

Sim, até agora estou muito feliz. Gosto dos treinadores, da equipa, e sinto que valorizam o que faço dentro e fora de campo.

 

Qual é o teu papel nesta equipa?

Neste momento estou a jogar a 3 e, basicamente, sou a terceira opção para criar. A minha responsabilidade é criar, para mim e para os outros. Estou a jogar com a bola outra vez no perímetro, a jogar pick-and-roll, a fazer um pouco de tudo. Ressaltos, defesa… Tenho de fazer um bocadinho de tudo nesta equipa.

 

E estás feliz agora?

Sim, sim. No início da época foi difícil porque desloquei a rótula do joelho e fiquei seis semanas parado, antes da época começar. Só voltei duas semanas antes do primeiro jogo.

 

Ou seja, perdeste vários jogos da pré-temporada.

Sim. Fiquei um bocado fora de forma, por ter ficado parado essas seis semanas. E depois fiquei com medo, lembro-me de ligar ao meu pai, estava super assustado. Foi no quarto jogo, mais ou menos, que tivemos outra vez uma crise de lesões entre os nossos postes. O treinador veio falar comigo e disse: “Diogo, eu sei que isto é literalmente o que aconteceu o ano passado, mas precisamos que tu ajudes a equipa jogando a 5.” E eu pensei: “Não me digas que vai ser a mesma história outra vez.” Mas, felizmente, os postes recuperaram, voltei à minha posição e, desde então, tenho estado a trabalhar muito. Nunca trabalhei tanto na minha vida como este ano. Estou a dar 100% porque sei que, se estou aqui longe de casa, sozinho, nos Estados Unidos, no Arkansas, mais vale dar tudo. Não quero olhar para trás e pensar: “Se calhar podia ter trabalhado mais”.

 

O primeiro jogo que fizeste este ano foi contra BYU, do Egor Demin. Que tal?

Sim, muito bom. Ele é incrível. A equipa deles está toda estruturada à volta dele, e ele é mesmo muito, muito bom.

 

E o ambiente? Jogar contra BYU deve ter sido especial.

Foi espetacular. BYU foi, provavelmente, o melhor ambiente onde já joguei. O pavilhão estava cheio, 20 mil pessoas. Foi uma experiência incrível. Foi mais um sentimento de “O que é que eu estou aqui a fazer?”

 

E agora que estás nesta fase em que começas a mostrar o que vales, quais são os teus objetivos para o resto desta temporada e para a tua carreira universitária?

A nível de equipa, o objetivo é chegar ao torneio da conferência, em março, e ser competitivos. Individualmente, quero continuar a melhorar. Não tenho números incríveis agora, mas estou satisfeito com a minha progressão como jogador e como pessoa.

 

Quais são as principais diferenças que notaste de Espanha para a NCAA?

A primeira, mais óbvia, é o atleticismo. Aqui, é muito raro encontrar alguém que não seja atlético. É quase mais estranho alguém não ser atlético do que ser super atlético. Depois, a estrutura do basquetebol. Sinto que aqui é muito menos estruturado, dão muito mais liberdade aos jogadores. Não há tantas jogadas definidas, depende muito do talento individual. Claro que há equipas com um estilo mais europeu, mas essas são as duas maiores diferenças: o atleticismo e a estrutura.

 

Tens feito muito trabalho físico?

Durante a época, não tanto porque temos muitas viagens, aulas, jogos… É mais manutenção. Mas fora da época é outro nível. Aqui o foco é muito no ginásio, na técnica de salto, corrida, tudo para ficares mais atlético. É muito mais intenso do que na Europa.

 

Onde é que te vês daqui a cinco anos?

O cenário perfeito seria acabar a universidade, voltar para a Europa e jogar na ACB. Para mim, é a melhor liga da Europa e adorava estar numa equipa da ACB. Depois de estar lá perto, em Espanha, sei o quão incrível é o nível.

 

Um dos teus cartões de visita têm sido as seleções. Tens sido uma presença constante nas seleções jovens. O que mais valorizas dessa experiência de representar o teu país?

Para mim, a minha altura favorita do ano é sempre jogar na seleção. Não sinto a camisola de nenhum clube como sinto a da seleção. É um orgulho enorme representar o meu país. É a maior honra. E as amizades que criei com os meu colegas é algo que vou levar para a vida. Há uma verdadeira irmandade entre nós.

 

E se tivesses de deixar uma mensagem para o teu pai, o que dirias?

Eu diria: “Obrigado por estares sempre lá para mim, por me apoiares, por me lembrares de onde vim e o que já conquistei”. Só isso.

 

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